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ISBN: 9788571390881
Editora: Unesp
Você já ouviu alguém dizer, com ar de quem encerra o assunto, que esquerda e direita não querem dizer mais nada? Que os dois lados prometem a mesma coisa, que os rótulos são só marketing eleitoral, que o mundo ficou complexo demais para caber numa linha reta?
Essa frase virou quase um consenso de mesa de bar. E foi exatamente contra ela que o filósofo italiano Norberto Bobbio escreveu, em 1994, um texto curto que ninguém esperava que virasse fenômeno. Ele vendeu mais de 200 mil cópias em um ano na Itália, às vésperas de uma eleição em que o país tentava se reorganizar depois do colapso dos partidos tradicionais. As pessoas queriam um guia para votar. Bobbio entregou outra coisa: um critério para pensar.
Aos 85 anos, ele não estava interessado em dizer quem tinha razão. Estava interessado em achar o que ele chamou de núcleo irredutível da divisão — aquilo que sobra depois que você tira a propaganda, os slogans e as alianças temporárias. E o que sobra, segundo ele, não é econômico nem religioso. É moral.
Nos próximos minutos, você vai ver por que a dicotomia resiste a todos os atestados de óbito, por que os extremos se parecem sem nunca se encontrar, e qual é a única pergunta que separa de verdade os dois lados.
A cada década alguém anuncia que a política mudou de natureza. Nos anos 1990, o argumento parecia definitivo. O Muro de Berlim tinha caído, a União Soviética acabara, e um dos polos da disputa ficou tão enfraquecido que a própria divisão pareceu perder o sentido. Se a esquerda perdeu, para que continuar falando em esquerda?
Bobbio responde com uma ironia afiada: decretar que as ideologias morreram é, em si, uma posição ideológica. E olhando com calma, elas não evaporaram. Foram trocadas por outras. O nacionalismo, o fundamentalismo religioso, o culto ao mercado — tudo isso são visões de mundo organizando o conflito, exatamente como antes.
O segundo argumento é mais sofisticado. Sociedades democráticas ficaram complicadas, cheias de grupos de interesse que não cabem em duas caixas. E surgiram movimentos que cortam o espectro ao meio: o ambientalismo, por exemplo, atravessa os dois campos e recruta gente dos dois lados. Bobbio concorda que isso é real. Mas lembra que a existência de um centro nunca aboliu os polos — ao contrário, o centro só existe porque há extremos para ficar no meio. E temas novos costumam ser absorvidos pela velha divisão em poucos anos. Basta ver como clima virou pauta partidária.
Você já deve ter ouvido que fascismo e comunismo são a mesma coisa. Bobbio acha a comparação útil e perigosa ao mesmo tempo — e faz questão de mostrar exatamente onde ela funciona.
O que os extremos compartilham não são os objetivos. É o modo de agir. Os dois recusam a democracia e desprezam suas ferramentas: o debate, a negociação, o acordo parcial, a paciência. Desdenhar a democracia como coisa medíocre, de gente sem grandeza, era bandeira recorrente do fascismo. Os dois também costumam atacar a herança do Iluminismo, preferindo explicações místicas, raciais ou históricas à razão argumentada. E os dois enxergam a história como catástrofe: a mudança só viria por ruptura brusca e violenta, nunca por reforma acumulada. Um moderado acredita em passos; um extremista acredita em salto.
Mas a semelhança para aí. Nos valores, nos fins, no que consideram uma sociedade justa, eles continuam em campos opostos. Por isso Bobbio considera a ideia de uma aliança entre esses extremos um disparate histórico. Eles usam armas parecidas para construir mundos incompatíveis. Confundir método com conteúdo é o atalho mais comum para não entender nada de política.
A origem da metáfora é quase constrangedora de tão acidental. Em 1789, na Assembleia Nacional francesa, quem apoiava o rei sentou de um lado da sala e quem queria mudança sentou do outro. Foi isso. Uma imagem espacial banalíssima, nascida por puro acaso de uma disposição de cadeiras, virou o vocabulário político do planeta por mais de dois séculos.
Ela sobreviveu porque serve a algo mais fundo. A política, diz Bobbio, é antitética por natureza: ela existe onde há lados em disputa. A história está cheia de pares assim — patrícios e plebeus, guelfos e gibelinos, os de cima e os de baixo. A divisão em dois é a forma mais econômica de organizar um conflito. E a democracia reforça isso, porque decide pelo princípio da maioria: para contar votos, alguém precisa formar o maior bloco, e blocos se formam somando contra alguém.
Daí a lógica implacável que todo militante conhece: o amigo do meu inimigo é meu inimigo. Em países com muitos partidos, o centro não escapa — a esquerda o enxerga como direita disfarçada, a direita o enxerga como esquerda envergonhada. E os rótulos nunca são neutros. Cada lado chama o próprio valor de virtude e o do outro de defeito. O que uma parte chama de igualdade, a outra chama de nivelamento por baixo.
Se a divisão sobrevive, qual é o critério que a sustenta? Bobbio testa os candidatos mais populares e derruba um por um.
O primeiro é a religião. O cientista político J. A. Laponce sugeriu que a direita estaria ligada ao sagrado e a esquerda ao mundo profano. Bobbio reconhece que ele joga com habilidade entre as distinções que propõe, mas aponta o furo: existe direita abertamente pagã e anticristã, e existe esquerda profundamente religiosa — da teologia da libertação, que no Brasil e na América Latina colocou padres ao lado de trabalhadores rurais, até os igualitários ingleses do século XVII, que pediam igualdade citando a Bíblia. Se o critério fura dos dois lados, ele não é o critério.
O segundo é a tradição. Dizem que a direita defende o passado e a esquerda defende a emancipação. Mas o oposto de tradição é inovação, não libertação — e há revoluções inteiras feitas em nome de uma tradição recuperada. O terceiro é a hierarquia, proposta para poupar o liberalismo de parecer de direita, já que ele tolera desigualdades de mercado. Bobbio vê aí uma manobra de salvamento, não uma análise. E há ainda a bandeira da diferença, levantada pelo feminismo. Ele responde que reconhecer que as pessoas são diferentes não resolve nada sozinho: a justiça sempre consistiu em tratar os iguais como iguais e os desiguais como desiguais. A pergunta difícil continua sendo qual diferença justifica qual tratamento.
Chegamos ao coração da tese. O que separa esquerda e direita, para Bobbio, é a atitude diante da igualdade.
Primeiro, um cuidado que evita caricatura. Igualdade nunca é absoluta: ela sempre depende de três perguntas — igualdade entre quem, em quê e segundo qual critério. Ninguém defende igualdade para todos em todas as coisas; isso seria uma utopia dogmática, e Bobbio separa cuidadosamente quem quer reduzir desigualdades de quem sonha em apagar todas as diferenças. A esquerda real é do primeiro tipo.
A diferença, então, está na ênfase. Todo mundo sabe que os seres humanos são ao mesmo tempo parecidos e distintos. Quem olha primeiro para o que temos em comum tende à esquerda. Quem olha primeiro para o que nos separa tende à direita. E a consequência prática é enorme: a esquerda enxerga as desigualdades mais gritantes como produto social, portanto modificáveis; a direita as enxerga como naturais, portanto permanentes. Rousseau resumiu um lado ao dizer que os homens nascem iguais e são tornados desiguais pela vida em sociedade. Nietzsche resumiu o outro ao afirmar que nascem desiguais por natureza, e só uma moral de rebanho tenta igualá-los. Duas frases, dois mundos.
Falta uma peça. Se igualdade fosse a única medida, como encaixar um regime que promete igualdade e tortura dissidentes? Bobbio resolve isso cruzando a primeira régua com uma segunda, independente: a atitude diante da liberdade. De um lado o ideal de liberdade, de outro o ideal de ordem imposta.
O resultado é um mapa com quatro campos. Igualitários e autoritários ocupam a extrema esquerda — e aqui o jacobinismo da Revolução Francesa é a referência histórica mais forte, com sua virtude imposta pela guilhotina. Igualitários e libertários formam o centro-esquerda, onde estão a social-democracia e o socialismo liberal. Libertários e anti-igualitários formam o centro-direita, com os conservadores que jogam dentro das regras democráticas. E anti-igualitários e antiliberais ocupam a extrema direita: fascismo e nazismo.
O desenho explica coisas que a linha única não explicava. Mostra por que o ideal de igualdade costuma andar junto com o de liberdade, mas nem sempre anda. E mostra por que adversários no mesmo campo, como comunistas e social-democratas, podem virar aliados contra uma ameaça comum sem deixar de ser diferentes. Dois eixos descrevem a política melhor do que um.
Bobbio chama a igualdade de estrela polar da esquerda — aquilo que orienta sem nunca ser alcançado. A prova histórica mais eloquente, para ele, foi o ataque à propriedade privada, vista por gerações de revolucionários como aquele direito terrível que bloqueia qualquer igualdade entre os homens.
Ele não romantiza o resultado. Reconhece sem rodeios que o comunismo real transformou o ideal em seu avesso: uma utopia virada de cabeça para baixo, que produziu nova opressão em nome da libertação. Mas conclui que o fracasso de uma resposta não anula a pergunta. Olhando para o abismo entre os países ricos e o que ele chamou de planeta dos náufragos — o Terceiro e o Quarto Mundo —, Bobbio diz que a tarefa não terminou: mal começou.
E então ele faz algo raro para um filósofo de 85 anos. Conta a própria vida. Nascido em família burguesa de Turim, passava as férias no campo e via seus amigos de infância morrerem de tuberculose, doença que não entrava na casa dele. Dessa cena nasceu o desconforto que o acompanhou por décadas diante de desigualdades imensas, fora de proporção e sem justificativa. Não foi teoria. Foi indignação.
Escolher um lado, no fim, não é escolher uma sigla: é responder se a distância entre as vidas humanas é destino da natureza ou obra nossa, e portanto reformável. Bobbio acrescenta um aviso de democrata: suprimir qualquer um dos dois campos empobrece todo mundo. Enquanto houver quem se indigne com o abismo, a velha divisão continuará viva. A política começa onde o escândalo não vira paisagem.
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